Entrevista de Sônia Abrão com seqüestrador divide especialistas

Por: Kathia Natalie

Foto: Dilvulgação

18/10/2008 | 13:16

Sônia Abrão conseguiu driblar a concorrência, na quarta-feira (15), ao entrevistar, com exclusividade, em seu programa A Tarde É Sua, da RedeTV!, Lindemberg Fernandes Alves, 22, que seqüestrou menina Eloah, de 15 anos.

Imediatamente, a concorrência reagiu: Datena, do Brasil Urgente, da Band, chamou a apresentadora de irresponsável. Na sexta (17), foi a vez de Rosana Hermann, do Atualíssima, na mesma emissora, dizer que jornalistas e apresentadores não tinham preparo suficente para intermediar uma negociação com seqüestradores.

Até a Globo se meteu na história, entrevistando o tenente coronel Flávio Jari Depieri, responsável pelas negociações do caso. OFuxico o procurou, mas soube, pela assessoria de imprensa da PM, que novas entrevistas foram proibidas.

"Sobre esse caso, a polícia só vai se pronunciar depois que o seqüestro acabar. Ninguém está mais autorizado a falar em nome da PM, mesmo para operações básicas, como treinos", informou uma das assessoras de imprensa da corporação.

Como resultado de toda essa confusão, já se vão quatro dias de seqüestro. Lindemberg, durante entrevista a Sônia Abrão, deu a entender que tem fôlego para muito mais: "Tenho comida para um mês e meio", avisou o rapaz.

OFuxico procurou especialistas em seqüestro, para entender se a entrevista feita pela jornalista é, afinal, antiética ou, de alguma forma, infringe a lei.

O advogado Paulo Castelo Branco, ex-Secretário de Segurança do Distrito Federal e membro da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) é bem claro: "Do ponto de vista legal, não. A jornalista não infringiu nada. O que houve, sim, foi uma incapacidade do Estado de proteger a área e de não permitir acesso de outros ao telefone do seqüestrador", disse.

Segundo o advogado, o cárcere privado está prolongado demais. "Agora, com o circo montado, polícia e vítima ficaram em uma situação muito complicada. Mas, volto a dizer que Sônia Abrão agiu dentro do que a liberdade de expressão permite. O Estado é que foi ineficiente", reforçou o advogado.

Já o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, que durante oito anos tratou de vítimas de seqüestro e é autor dos livros Ciúme, o Medo da Perda (Ed. Claridade) e Transtorno do Estressse Pós-Traumático em Vítimas de Seqüestro (Summus Editorial), acredita que, embora a jornalista não tenha feito nada de errado legalmente, acabou, sim, prejudicando as negociações.

"Essa é uma situação bastante particular, fora dos padrões. O rapaz não tem perfil de seqüestrador e está psicologicamente desequilibrado", disse o psiquiatra a OFuxico.

Logo em seguida, ele emendou: "Sônia Abrão, ao entrevistá-lo ao vivo, só colocou-o no centro das atenções e lhe deu mais poder e satisfação pessoal, o que é um complicador. Uma pessoa assim, com transtorno, em crise, fica com o ego inflado e passa a buscar Ibope, levando vítima e polícia à exaustão e, conseqüentemente, a um final trágico".

Nesse ponto, o advogado concorda com o psiquiatra: "Com toda essa história, esse seqüestrador ganhou status de celebridade e é, hoje, a pessoa mais importante da mídia".



Shopping