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Uma das maiores emoções que tive na tevê, definitivamente, foi entrevistar a Chiquinha. Na época, eu trabalhava no Falando Francamente que tinha, entre tantas atrações, um quadro especial para falar das atrações do SBT (emissora em que o programa era transmitido). A idéia da viagem foi comunicada pelo Thiago Marocci – um dos produtores mais competentes com quem já trabalhei. A missão era complexa: entrevistar um grande número de artistas mexicanos, em apenas 15 dias. A viagem foi tranquila, pela Aeroméxico. Ainda não estava habituado a viagens internacionais, e imaginei que as quase nove horas que nos separavam da Cidade do México seriam cansativas. Não foram! Sim... eu simplesmente não fazia idéia de quem era Daniela Aiedo, Fernando Calunga e Belinda Schultz!!! Isso só pra citar o nome de alguns da lista, que só conheci na hora, pois estávamos dependendo de autorização para entrevistá-los. O motivo deste “desconhecimento” é básico. Eu nunca fui muito fã de novela. De novela mexicana então, nem pensar! Eu fazia parte da turma que ria das dublagens sempre fora do ritmo e da história, que terminavam com uma reviravolta no casamento de Gabriel Antônio com Heloísa Cristina. México total! Mas, acreditem, esses nomes no México (e para muitos fãs espalhados pelo mundo) são tão importantes quanto uma Xuxa, Susana Vieira ou Tony Ramos, para nós brasileiros. E foi muito legal ver isso! Mas, voltando à história da Chiquinha. Eu já sabia que iria entrevistá-la e isso, claro, era um acontecimento. La Chilindrina (ou Chiquinha, no Brasil) é a personagem interpretada pela atriz Maria Antonieta de Las Nieves. E foi justamente essa jovem senhora que nos recebeu em sua confortável casa, nos arredores da capital mexicana. Quem nos recebeu na porta foi a própria. Arrumada e com uma simplicidade própria das grandes estrelas. Conversamos breves amenidades e ela disse que agora precisava se ausentar rapidamente, para chamar sua “filha”. É interessante como os atores tratam seus personagens mais marcantes, na terceira pessoa. Não é ficção. Se para o público eles existem, para os seus “donos” são mais do que um personagem. Fazem parte de uma família imaginária, em que o carinho e a troca são reais. Com a Chiquinha e Maria Antonieta não era diferente. Lá estava a Chiquinha, nas fotos, com a mesma roupa, sorriso e carisma que não denunciavam na imagem estática de uma foto o passar do tempo que não perdoa ninguém. Nem mesmo os artistas. Ela estava lá. A personagem amada por milhões de pessoas pelo mundo estava na minha frente, pulando e fazendo-nos esquecer – mesmo que por instantes – que há pouco uma jovem senhora ocupava o mesmo espaço. Não tive outra escolha a não ser começar a entrevista ali mesmo. No susto. Ela veio e já pulou no meu pescoço, brincando. Entrei na onda. A pior coisa que podemos fazer em uma entrevista de entretenimento, é cortar a energia do entrevistado quando ela está leve e fluida. É nessa hora que conseguimos o nosso maior objetivo: sair da entrevista e entrar na conversa. O público gosta disso e nós, entrevistador e entrevistado, também. Comecei com perguntas leves sobre o Brasil. Fiquei surpreso, quando ela disse que era muito fã de uma artista brasileira: Xuxa Meneghel. Disse que Xuxa não era apenas a rainha dos baixinhos no Brasil, mas para todo o público que a acompanha pelo mundo. Eu instiguei: Então, canta uma música da Xuxa!, disse, duvidando se ela cantaria mesmo. Entramos na história artística. Ela falou de suas experiências no circo, nas novelas mexicanas e, claro, da briga com o Chaves. Perguntei o que tinha acontecido e ela, com os olhos marejados, falou que só queria poder trabalhar usando a personagem e Bolaños (o verdadeiro nome do Chaves, criador da Chiquinha) não deixava. No final de tudo, a briga era pela propriedade da personagem e resolver a questão: vale quem criou ou quem deu vida? Quem fez o papel ter cor, voz e emoção... Não nego que tomei partido por ela. Não posso julgar como jornalista. Estou ali para entrevistar e relatar um fato. Não expus, claro, minha opinião no ar, mas intimamente não entendia como um homem, já rico e bem-sucedido, iria brigar por uma situação que representava o “ganha pão” daquela artista. É claro que ela não está na miséria. Está bem e na ativa. Mas, não sei por que privá-la de algo tão importante para qualquer pessoa: seu trabalho e satisfação. Na sequência, falamos sobre muitas coisas, como família (o marido dela apareceu e nos deu entrevista também), e foi uma das entrevistas mais longas da minha carreira. Conversamos por mais de uma hora, certamente. Haja assunto! Àquela altura do campeonato, eu já estava satisfeito com os mágicos momentos que passamos ao lado da filha do seu Madruga.
E na grade, claro, o Chaves era o que continua sendo até hoje: um curinga na programação, capaz de bater inacreditáveis recordes de audiência, mesmo já tendo sido reprisado tantas e tantas vezes.
Isso, isso, isso!
