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Estou voando entre a Índia e o Brasil. Nas mãos de Deus. Estava no inferno (Calcutá), estou no purgatório (classe econômica de vôo internacional), indo para o céu (Campos do Jordão, SP).

Depois de três meses de intensa prática de Bhakti Yoga, me despedi de Sua Divina Graça (meu Guru) com uma sensação profunda de despedida, sensação de que talvez nunca mais veja sua presença cheia da Graça Divina... Fiz o possível para não chorar e me mostrar alegre e otimista. Agradeci sua hospitalidade e misericórdia sem causa, me desculpei por qualquer ofensa cometida e prometi que faria de tudo para cuidar do nosso ashram no Brasil. Ele estava inesquecível e me encheu de amor. Tive tantas provas de Seu Divino amor... tantas vezes Ele me salvou...

Para mim, Ele é a pessoa mais preciosa que existe neste planeta, acima de qualquer dúvida, acima de qualquer sentimento mundano. Através Dele, me conecto com meu Eu superior, me inspiro melhorar meu Ser e aumento minha capacidade de tolerar e servir.
 
Well... depois peguei um táxi e, com o coração disparado, atravessei Calcutá realizando a fragilidade da vida e a grandeza da alma.
 
Cheguei na estação de trem e vi muitas pessoas sem pernas, sem braços, se arrastando pelo chão, implorando esmolas. Se você der uma esmola para um deles, não consegue mais andar, porque todos se juntam ao seu redor e imobilizam seus movimentos.

Decidi ir de trem, para ver a vida numa dimensão mais crua. A viagem, que deveria durar 24  horas, atrasou e demorei 30 horas. Chegando em Nova Deli, encontrei um amigo muito bacana, que tinha feito uma reserva num hotel apropriado para a ocasião. O hotel era limpinho e cheirava bem, o que me surpreendeu e alegrou.
 
Na Índia, sempre fico preparada para austeridades do tipo:  acabou a luz, água só daqui a três horas, greve de táxi, passeata no trânsito etc.

Fiquei meio desconfiada, quando vi tudo limpinho e funcionando... Antes de tirar a roupa para tomar banho, liguei o chuveiro para ver se tinha água e realizei que a situação já não era de austeridade a toda prova, tinha água quente. Entrei de roupa e tudo, e comecei a chorar e rir de tanto prazer, por um banho quente num chuveiro forte. Tomei um banho longo e reparador, depois meditei e dormi.

Em Nova Deli, é muito visível a influência ocidental e, sinceramente, lamentável. Os indianos estão cada vez mais se vestindo como ocidentais. E nos restaurantes já tem tantas opções de comida com carne de frango e carneiro, que me faz pensar que em poucos anos eles estarão comendo carne de vaca. 

Kali Yuga... Nas escrituras sagradas da Índia, descreve-se essa nossa era como Kali Yuga, a era da ignorância, que começou há 5 mil anos. Nessa era, muitas pessoas enriquecerão comercializando sexo ilícito, jogos de azar, intoxicação e matança de animais. A religião está em declínio, a mente não está em paz e a população de malnascidos e desaventurados aumenta, assustadoramente... filhos começam a matar os pais... Kali Yuga.

Passei três dias em  Deli, fazendo compras para o ashram de Campos do Jordão.

Metrô é uma coisa nova na Índia e está funcionando muito bem. É um dos poucos lugares limpos, e muito melhor que andar de táxi... Táxi é uma história a parte: você pede para o motorista levá-lo ao jan path market, por exemplo, ele roda por uns 20 minutos e pára em frente ao empório popular dos agregados desesperados. Você fala: epa, não é aqui que eu quero ir. Ele responde: 'Aqui é melhor'!  Lógico que ele tem comissão do empório. Se você insiste que quer manter seu plano inicial, ele pede mais 50 rúpias. Enfim, quando a gente pega o jeito da coisa, está na hora de ir embora.

Nas lojas, a barganha de preços é de matar. É praticamente impossível fazer bons negócios, se você for marinheiro de primeira viagem. Por exemplo: você gosta de um sari, pergunta o preço e o vendedor diz: 1500 rúpias. Você oferece 500, ele diz não e fica bravo. Você vira as costas e vai saindo... O vendedor o chama de volta e diz: 'Ok madame, leva por 700'. Aí, você oferece 600 e leva.
 
Vamos parar em Amsterdam, mas não vai dar tempo de fumar um baseado... rsrsrsrs (Regina Shakty)
 
A classe econômica de avião é bem pior que ônibus Itamaraty.


 
PARTE 2
 
Cheguei em São Paulo e a diretora de OFuxico estava esperando sorridente, amigável e, com ar de competência, organizou tudo: desde arroz integral, até quem me levaria para Campos do Jordão, no dia seguinte.

Dia seguinte: Cheguei em Campos, às 11h30 da manhã, e umas 30 pessoas, entre amigos, funcionários e crianças da região, estavam esperando com guirlandas, camisetas escrito Regina Shakty, tambores, faixas, todos os cahorros com lencinhos no pescoço, apitos etc. Depois de nos abraçarmos, nos emocionarmos e trocarmos gentilezas, subi para circungirar os templos e oferecer minhas reverências, reconhecendo este local como sagrado. Em seguida, foi servido um super almoço com beringela à parmegiana, batata gouranga, saladas e muito mais.

Agora, vou passar alguns dias abraçando as árvores, jumenta, pedras, vacas...
 
Estou muito feliz em estar aqui. Os jardins estão lindos, o ar mais puro que eu conheço, a água que me dava tanta saudade e os cães adoráveis, abanando os rabos sem parar.
Adoro Campos do Jordão!
Venham nos visitar.
Um abraço afetuoso
Regina Shakty