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Em primeiro lugar, quero agradecer a todos que estão me acompanhando nessa viagem pela Índia, através das minhas colunas no OFuxico, escrevendo e.mails, incentivando e me inspirando. Se não fossem vocês, eu não estaria aqui hoje em Bamunpara.

Mesmo sabendo que fazer algum serviço, onde nasceu o GURU, é uma garantia de avanço na vida espiritual, passar alguns dias aqui é austeridade demais no momento ... pensei em agradá-lo de outra maneira, pois estou muito sensível. No fim , decidi que isso agradaria a ELE e VOCÊS.
 
Estou muito sensível porque, semana passada, perdi um grande amigo. Esse amigo que perdi, era com quem eu mais conversava, nesses últimos 12 anos que vivi retirada no meio da floresta em Campos do Jordão (SP). Ele era verde, amarelo, azul e vermelho e gostava muito de conversar, quando o sol nascia e ao entardecer. Se eu não estivesse por perto, ele ficava muito triste. Quando eu viajava, às vezes ele nem comia de tristeza. E, quando eu voltava, às vezes  desmaiava de emoção.

Recebi a notícia que meu papagaio morreu... de tristeza. Dessa vez, estou peregrinando há muito tempo. Ele deve ter pensado que eu morri, e morreu também. Meu loro amado teve um dono por 35 anos, que ele adorava e se chamava Muni. Quando o Muni abandonou o corpo, ele sofreu muito e foi morar com a Isabelle Tuchband. Depois de 15 anos com a Isabelle, veio para o ashram e demoramos um ano e meio para ficar amigos.

O começo da vida dele não sei direito, mas já tinha tido dois donos antes do Muni. Como ele era um passarinho, ninguém imaginava que me contaria tudo que acontecia na minha ausência e o que falavam de mim. E, às vezes, ele nem contava, para não me entristecer. Mas, me contou muita coisa de arrepiar.
 
Bom, estou contando sobre minha semana passada, para vocês saberem que foi difícil, muito difícil... além do que, quebrei um dente e vi açougue em Calcutá.

Estava quase largando tudo e indo para um hotel 5 estrelas. Não fiz isso para continuar nossa peregrinação, conforme combinado com a Esther Rocha, diretora do site OFuxico.
 
Um dos mandamentos de qualquer tipo de Yoga é TAPASYA - austeridade. Sem austeridade, não tem avanço - algum sacrifício é necessário.
 
Bom gente, resumindo, não dá para resumir... é tudo intenso demais e acho que vou chorar. É ... vou chorar. Depois eu continuo.

PARTE 2

Viemos seguindo nossa proposta inicial de fazer um jardim para nosso GURU, de presente por seu aniversário dia 14 de dezembro, no local do seu nascimento, que chama BAMUNPARA e é um vilarejo que faz Navadwip parecer uma grande cidade.

Viemos eu, o amigo brasileiro Sundar Gopal e uma americana muito doce, chamada Kunti. Como já não agüentamos mais comer pimenta e nossa saúde está afetada, trouxemos fogareiro e alguma coisa para cozinhar. Chegamos e recebemos a notícia que não tem água no ashram, há três dias. Banho no lago, balde de água do lago no banheiro... ai, eu não agüento mais! Nunca gostei de acampar.
 
Ok, vamos cozinhar alguma coisa para animar - trouxemos 20 litros de água mineral... mas esquecemos da panela.

Ok, vamos escrever para não surtar. Estamos sem eletrecidade e, daqui a pouco, vai acabar a bateria do meu computador. Mas, temos uma coisa a nosso favor: a temperatura está boa - já não faz tanto calor... Saimos no vilarejo para comprar pilhas, legumes, mesinha de cabeceira, baldes etc... Sorry, não tem vendinha, barraquinha nem nada para vender aqui.

Fizemos uma lista para dar ao motorista, e pedir para ele fazer mais uma viagem e trazer essas coisas para tornar viável nossa estada.  Sorry, o motorista foi embora.

AI KRISHNA !!!! KRISHNA, KRISHNA !!!!

Acabamos de receber um telefonema do monge de Navadwip, no celular da Kunti, dando instruções para não colocarmos os pés do portão para fora, porque tem muitos muçulmanos e eles odeiam ocidentais.
 
Fomos todos rezar e comer o que tinha. Era uma prasada  (comida abençoada) com mamão verde, batata e chapati  (pão indiano). Não tinha muita especiaria, e todos eram muito gentis e ofereciam o melhor para nós, sem se preocupar se sobraria para eles. Isso me comoveu, acalmou minha mente e meu coração entrou em cena.

Comecei a escutar o som do lugar, respirar o ar com consciência e chamar por KRISHNA, tentando alegrar meu coração e ver algo mais nessa situação.

ELE apareceu na minha mente, com um passarinho verde nos ombros. Fui até o templo e KRISHNA estava lá, no altar, com sua namorada Radharani, brincando de estátua. Rezei, rezei, rezei fortemente, desejando do fundo do coração ser uma pessoa preparada.

Imagine... surtar, porque não tem panela, acabaram as pilhas, não tem mesinha e eletricidade! Imagine surtar, porque não entendi direito como vim parar aqui, como vou sobreviver e não sei como voltar! Me senti tão superficial, tão patricinha  (desculpe aí... minha secretária se chama Patrícia).

Está tudo perfeito... isso foi um arranjo da esfera divina. Peguei nas mãos da Kunti, fechamos os olhos e eu disse: vamos meditar, ouvir o universo, acalmar nossos corações e ir dormir. Veja só... temos cama e colchonete... e banheiro no quarto, com um balde cheio de água do lago das flores de lotus... somos muito afortunadas!

Boa noite, caros leitores do OFuxico.

PARTE 3

Acordei às 4hs da manhã, para a reza das 4h30. Quando cheguei lá, os meninos já estavam tocando mrirdanga (tambor) e cartalos (simbalos). Cantei junto. Depois, andamos várias vezes em volta do templo, cantando várias canções, e oferecemos respeito, com a cabeça no chão, a TULASI (planta de poder adorada pelos devotos de KRISHNA).

Às 7hs, fizemos uma leitura em espanhol, por causa do Bamsi Bihari, devoto mexicano que chegou um dia antes. A leitura foi sobre as 10 ofensas que devemos evitar, quando cantamos o santo nome de KRISHNA. Só então a rainha Kunti acordou, e fizemos uma reunião.

Estavam todos preocupados como iríamos embora, e eu disse que não deveríamos sair dali sem fazer o que viemos fazer : O JARDIM
 
Começamos a juntar as madeiras do terreno, cuidar do que já estava plantado, empilhar tijolos e pedras e contratamos três camaradas para limpar o mato. No fim da tarde, as flores de lotus se abriram de felicidade e nós entramos em êxtase, sem batatas fritas e seven up. É... porque êxtase por aqui é tomar algo gelado efervescente, no calor estonteante, e comer batata frita. 
 
EPÍLOGO

Fizemos um bom trabalho, no jardim e na nossa mentalidade. A água voltou, depois que realizamos que dá para sobreviver sem água encanada. Fiquei com vontade de fazer doações aqui, fiquei envergonhada de comer sem ter trazido alimentos e com medo de ofender, dando dinheiro. Decidi que vou mandar pelos próximos devotos que vierem. A feira de legumes mais próxima fica a 5 km.

O templo é lindo e as deidades muito doces e maravilhosas. O guest house acabou de ficar pronto, e é uma oferenda para o aniversário de Srila GURUDEV. O ladys ashram (local onde ficam as devotas) é todo cor-de-rosa, com arcos estilo indiano e tem até chuveiro nos banheiros.