|
Um abraço e até lá Regina Shakty
Calcutá é pior do que a idéia que eu tinha do inferno, quando era garota. Aqui não tem um ar para respirar, só poeira... e a água é de quinta. Já estou aqui há duas semanas e minha mente está começando a ficar agitada. Ontem à noite quebrei um dente com uma pedra que encontrei no arroz. Ainda bem que não era prego, podia ter furado meu cérebro (risos). Quebrar um dente em Calcutá, é mais do que eu posso suportar.
Quando nosso GURU está bem e conversa com a gente pela manhã, Calcutá começa a brilhar e a gente não enxerga os defeitos. Agora que Ele voltou para casa, só recebe visitas meia hora por dia e a vida gira em torno dessa meia hora de luz. O resto do tempo nós convivemos com o caos.
Finalmente tomei coragem de ir ao dentista, e me disseram que a Dra. Shilpi Malhotra já havia tratado dos dentes de Srila Gurudev. Mesmo assim, lá estava eu, com os ombros caídos, o coração apertado e olhos de cachorro sem dono, num táxi, indo ao meu encontro indesejável e pensando que nada pior podia ter me acontecido. Mas aconteceu algo pior: vi, pela primeira vez como é a venda de carne de galinhas nas ruas de Calcutá.
É assim: fica um monte de galinha uma em cima da outra, num canto. O comprador chega e escolhe qual galinha quer levar. O matador pega a galinha, coloca seu pescoço num pedaço de madeira e desce a faca, com toda a força, cortando-a fora, na frente das outras que já estão em estado de altíssima tensão e não reagem mais. O cheiro de sangue misturado com pecado é de acabar com o dia.
Passada essa aventura nada agradável, cheguei na Dra. Shilpi. Achei tudo limpinho e a Dra. é bonita e forte. Em seguida veio uma ajudante vestida com sari branco. Abri a boca e ela falou que ia começar o tratamento. Eu pedi que me desse anestesia. A Dra. respondeu que daria se doesse. Em último caso, eu levantaria a mão esquerda, e ela daria anestesia.
Quando ela ligou o motor, parecia o gerador da fazenda do meu avô. Levantei as mãos e comecei a gemer. Ela disse: "Relaxa"! Eu dei uma relaxadinha, e ela repetiu: "RELAXA, RELAXA!" em tom forte, brava, decidida. "Vai doer pouco, agüenta, RELAXA". Ela era pequenininha e muito brava.
Fiz tudo sem anestesia. Estava acabada quando tudo terminou. As galinhas, o dente quebrado... gostaria que tivesse pelo menos um dos meus cachorros comigo, para eu abraçar e chorar.
Cheguei no guest house, arrumei minhas coisas e combinei com a Kunti, uma devota americana, que alugaríamos um carro bacana e iríamos a Navadwip, na manhã seguinte, às 6hs.
Fomos... estamos indo... estou no carro, escrevendo para distrair. O motorista estacionou num tipo de acostamento e se recusou a continuar. Explicou, em bengali, que precisamos parar. A gente reage, a gente entende que precisa parar porque passou um gato preto na frente do carro e isso é mau auspício... Todos aqui são muuuiiito supersticiosos!
Eu já sabia disso. Existe um livro na Índia que fala tudo que é auspicioso e não auspicioso. Por exemplo: se você acorda e vê um cesto vazio, é mau. Deve orar e virar o cesto ao contrário. Se acorda e vê uma vaca, é bom, o dia vai ser bom. Se um bicho preto corta seu caminho, pare! E por aí vai... Como eu já tinha ouvido falar desse livro e da fé dos indianos nos sinais, entendi logo que ficaríamos ali até o motorista acabar suas orações.
Ok, resolvi pegar a câmera e fotografar umas BANYANS, figueiras sagradas de Bengala, e observar alguma coisa interessante. A Kunti resolveu fotografar também e... cadê a bolsa dela, com US$ 4 mil, câmera, iPod, celular, computador etc, etc? Hvia deixado no lugar que paramos, uma hora antes, para tomar chai (chá indiano).
Fizemos o motorista entender que precisávamos voltar e ele balançou a cabeça, como que dizendo: 'eu sabia, eu avisei alguma coisa errada'... Enfim, voltamos e a bolsa estava lá, com tudo dentro. Batemos palmas para o dono do lugar e desejamos que a Deusa Lakshimi o abençoasse com boa fortuna, por sua honestidade. Aí então fomos embora, felizes.
Chegamos a Navadwip, esse vilarejo sagrado que eu venero, a casa da minha alma. Adoro chegar aqui! Assim que chegamos, fomos até o templo do Sr. Shiva prestar reverências e oferecer flores. Depois, fomos até o Samadhi (túmulo) do GURU do nosso GURU, fundador da nossa escola - SRILA BHAKTI RAKSAKA SRIDHAR DEV GOSWAMI MHJ. Em frente desse lugar existe a árvore TULASI, mãe da devoção. Prestamos nossas reverências e finalmente nos dirigimos ao templo principal onde fica KRISHNA. Cantamos e circulamos três vezes em volta dele.
Depois, fui ver meus amigos. Mando fotos desse momento, com o filhote, cheirando a flor, comendo restos de vegetais.
Vou passar o fim de semana aqui e, segunda (8), irei com algumas pessoas ao local de nascimento de SRILA GURUDEV, para fazer um jardim e oferecer a Ele como presente de aniversário, no dia 14 de dezembro. Lá não tem internet, nem televisão, e ninguém sabe quem é Madonna.
Vou ficar uns dias off, sem conectar com o mundo prático, sem nem ouvir falar do esquemão do mundo cão. Vou abrir meu coração e me entregar nesse trabalho de flores de lótus e aromas transcendentais.
Vou fotografar tudo, escrever antes de dormir, pensar em vocês, e esse trabalho será a próxima coluna.
Afetuosamente,
